sábado, 14 de outubro de 2017

Versão original




Não dá para fazer bolo. Quebrei o tornozelo. Ainda não consigo ficar em pé por muito tempo.
Ouvi da Bárbara que eu não entendia o conceito de parar e ficar sem fazer nada.
Quebrei o tornozelo. “Seis semanas sem colocar o pé no chão. ”
Ouvi da Bárbara que eu iria enfrentar meus fantasmas internos...
Fiz crochê.
Duas malhas um casaco, três ponchos, quatro toucas, duas mantas, muitas bandeirinhas, jogo americano, tapete, cestos...
Eu não entendo o conceito de parar e ficar sem fazer nada.
A cada quadradinho da manta, mais entrava em contato com a minha Nona (Nona com um n só. Ponto.), com minha mãe, com minha infância, comigo.  Sem me dar muita conta, nessa introspecção - dar a laçada, puxar a lã, fazer o ponto - fantasmas internos foram surgindo. E, sabe o que? Gasparzinhos. Na medida em que eu fui enxergando bem cada um deles, fui percebendo seus olhos, seus traços, sua altura... Gostei do que vi. Um remendinho no lençol aqui, outro ali, uma manchinha, um desfiado... mas o tecido é macio, é confortável, é seguro. É meu. Sou eu.
Me deu muita vontade de me encontrar. De pintar o cabelo, da cor da raiz. De me olhar no espelho, me reconhecer e me orgulhar. Gosto e me tranquilizo com as coisas que fiz como eu mesma. Marina. Sinto pelo tempo e pela energia gastos tentando não ser as coisas que eu ouvia que eu era, que ouço que sou...
Por que ser menos eu?
Amo imensamente. Gosto de mimar meus filhos, minhas netas. Falo alto. Dou risada. Adoro enfeitar a casa. Gosto de bicho. De flor. Gosto de coisas, histórias, fotos, lembranças. Gosto de alimentar as pessoas...
Não dá para fazer bolo. Meus pés estão quase firmes no chão. Vou fazer crochê.

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